Escrever, falar e outras ações comunicativas são atividades construtivas complexas. São processos de troca que constroem e coconstroem universos de sentidos que chamamos esquematizações. As esquematizações são habitadas por objetos da fala, objetos construídos por atividades discursivas. São determinados e inscritos em espaços de raciocínio e argumentos que o discurso modela igualmente.

Os universos de sentidos são a expressão de construções discursivas progressivas que um locutor conduz de acordo com propósito e público específicos, sempre no campo de um contexto muito particular. Tendo em vista as apostas de comunicação realizadas pelos locutores, cada orador deve projetar seu discurso de modo que induza a uma reconstrução coerente com seus desejos, dirigida para o público ao qual se destina. Admitir esta maneira de se pensar as atividades discursivas é estar convencido de que o leitor ou ouvinte para o qual o discurso é dirigido, é capaz de reconhecer o objeto de conhecimento, as formas do dizer, e os dados sócioculturais pré-construídos  no momento em que se dá a relação alocutória. Essas formas e seus dados reconhecidos se organizam, portanto, de modo a significar, por ressonância, uma esquematização onde os raciocínios desenvolvem argumentações que relevam da expertise ou do senso comum.

Nesta perspectiva, as atividades de leitura, ouvir, ver ou sentir pelo tato e, subsequentemente, a decodificação, a integração de informações e a representação do conhecimento dessas dimensões, são consideradas reconstruções operadas pelo interlocutor. Se compartilhamos essa maneira de compreender as diferentes formas de comunicação, devemos também compartilhar a ideia de que para revelar construções discursivas complexas, são necessários signos reconhecíveis dessas atividades. Estes signos são inferidos pelos participantes do processo de comunicação, e re-enviam, induzem e implementam atividades lógico-discursivas subjacentes à construção dos micro-universos da comunicação. A lógica natural é o estudo do sistema de operações lógico-discursivas que contribuem para a construção de uma esquematização. Além disso, é necessário “des-cobrir” esses índices textuais, esses signos que revelam e induzem, de um lado, as operações constitutivas do universo esquematizado e, de outro lado, as operações que governam a organização das articulações raciocinadas e argumentadas onde se inscrevem os objetos do discurso.

A lógica natural é,  portanto, uma teoria, um sistema de representação, e um método. É uma teoria no sentido de que trata-se de um modo de leitura orientada na direção de se destacar explicitamente as operações lógico-discursivas. É também um sistema de representações da construção criativa de uma ontologia discursiva. Além disso, é um método porque pode ser aplicada à linguagem para descrever as representações co-construídas, permitindo um conhecimento aprofundado e rigoroso do processo de comunicação. A lógica natural reconsidera o problema fundamental da análise do discurso, ultrapassando a fase de explicação do que se entende de uma comunicação dada, para nela explorar as razões desse entendimento. A pesquisa atual tem como objetivo ir além da análise de textos para estabelecer a lógica natural como uma semiótica construtivista-crítica capaz de processar vários níveis de linguagem ao mesmo tempo.

Desenvolvida sob a direção e liderança do Professor Jean-Blaise Grize, no Centro de Pesquisas Semiológicas da Universidade de Neuchâtel, a lógica natural tem atraído muitos pesquisadores que contribuem hoje tanto para o seu desenvolvimento quando para aplicá-la a interrogações.